15 de julho de 2026
Vínculos que Sobrevivem às Palavras
Houve um tempo em que eu acreditava que a memória morava apenas na cabeça. Hoje sei que ela também habita as mãos, o modo como alguém segura uma xícara, o silêncio entre duas palavras, a demora de um olhar que procura um rosto conhecido e encontra apenas uma névoa. Às vezes, quando me sento diante de quem amo, tenho a estranha impressão de que sou eu quem precisa ser lembrado. E pergunto a mim mesmo, enquanto talvez tu também o faças: será que deixamos de existir quando somos esquecidos, ou passamos a existir de outro modo, naquele lugar onde o afeto continua reconhecendo aquilo que o nome já não alcança?

No começo, eram distrações pequenas, tão humanas que pareciam pertencer apenas ao cansaço dos dias. Depois vieram as perguntas repetidas, os objetos guardados onde nunca estiveram, a desconfiança diante da própria casa, como se as paredes tivessem sido erguidas por estranhos durante a noite. Passei a viver entre pequenas despedidas, nenhuma suficientemente grande para justificar o luto, mas todas profundas o bastante para me transformar. Descobri que o Alzheimer não leva uma pessoa de uma só vez; ele a afasta de nós na delicadeza cruel dos milímetros, obrigando-nos a aprender a amar alguém que, pouco a pouco, deixa de saber quem somos.
Foi então que compreendi que cuidar não era conservar a memória do outro, mas emprestar-lhe a minha. Eu me tornava os lugares que já não reconhecia, os nomes que lhe escapavam, as histórias que já não conseguia terminar. Repetia as mesmas lembranças sem esperar que fossem lembradas; fazia-o porque, de algum modo misterioso, elas ainda sustentavam a dignidade daquele instante. Há um cansaço que pesa sobre o corpo, mas existe outro, mais silencioso, que nasce quando percebemos que o amor continua inteiro justamente no momento em que deixa de ser correspondido pela consciência.
E talvez seja essa a mais discreta das revelações. O Alzheimer parece perguntar, todos os dias, se amamos a memória que alguém guarda de nós ou a pessoa que permanece quando a memória se vai. Não encontrei resposta. Apenas continuo segurando aquela mão que já não sabe meu nome. Porque há vínculos que sobrevivem às palavras, e talvez o amor, quando amadurece o suficiente para atravessar o esquecimento, deixe de precisar ser reconhecido para continuar existindo.
Por Alexander Loureiro, Brasília 2026


